Aonde Você Escreve Sua Raiva?

Um modo como seguramos e mantemos a raiva na mente, mesmo apesar dela nos ser desagradável, é ilustrado por um símile dado pelo Buddha no Lekha Sutta. Lá o Buddha diz que há três maneiras de se lidar com a raiva.

Algo ocorre, ficamos com raiva, e a mantemos por um longo tempo, ruminando-a. Quem sabe até por toda a vida! Tal atitude o Buddha compara a alguém que faz riscos profundos em uma rocha. Há, então, a raiva que fica por um tempo, mas a pessoa é rápida em deixá-la passar. Isso é como alguém que escreve na areia ou num solo macio. As marcas logo serão apagadas pelo vento ou pela água. Tal pessoa, ainda que fique com raiva, é macia e flexível por dentro, e não dá muita margem para a raiva se perpetuar. Finalmente, há aquela que é como alguém que escreve na água, tão logo os traços de irritação e descontentamento surgem em sua mente logo são apagados, pois ela não segura esses traços por meio da repetição do pensamento e do tomar tudo como sendo pessoal.

Como você lida com sua raiva? Se você se percebe no primeiro ou no segundo tipo, o treinamento em mindfulness lhe ensinará em primeiro lugar a se distanciar emocionalmente da raiva na medida necessária para vê-la um pouco mais claramente. Se você tentar suprimi-la irá apenas adiar o problema, além de colaborar para aumentar sua força subconsciente. Se você simplesmente expressar a raiva, estará justificando sua reação e, portanto, fortalecendo-a conscientemente. Ter mindfulness nesse momento implica em estar presente com a raiva, permitir seu aparecimento e reconhecimento na mente, mas sem reagir positiva ou negativamente.

Ver a raiva sem reagirmos a ela nos permitirá compreendê-la num sentido mais profundo, talvez percebendo nossos preconceitos e pré-julgamentos, as noções de eu e propriedade que mantemos na mente, nosso senso de importância e nossa fragilidade. Aquilo que acreditamos, nossas crenças e julgamentos, alteram a forma como interpretamos os fatos que nos acontecem. O que pensamos de nós mesmos molda nossas ansiedades e nossa dor. Tudo isso deve ser percebido com compaixão em relação a nós mesmos.

Uma calma abordagem de nossas irritações, rancores e desconfortos também poderá permitir compreendermos nosso próprio papel em todo o processo. Em que medida colaboramos para que uma situação escalasse a um ponto de agressividade ou mesmo violência? Mindfulness nos permite ver o contexto da raiva. E quando compreendemos verdadeiramente nossa dor e a forma de nosso apego, nos colocamos numa melhor posição para soltar.

Experimente ficar uns minutos em silêncio. Torne-se consciente de seu corpo, do ambiente em torno, relaxe as tensões que perceber. Faça algumas respirações mais profundas.

Se tiver mais alguns minutos, investigue com mais atenção seu corpo. Sinta as sensações nas várias partes do corpo. Faça isso por dois, cinco ou mesmo 10 minutos. Aí então talvez você possa estar mais centrado para lidar com aquela emoção em particular de maneira mais equilibrada, compreendendo as situações que nos despertam a irritação e os motivos internos de reagirmos tão explosivamente.

* Ricardo Sasaki é psicólogo clínico e um dos professores do NUMI.

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