Não Faça Como o Macaco

 

Uma ideia, presente na mente das pessoas, que está bem associada à crença de que há coisas permanentes é a ideia de que existiria um eu eterno independente de todas as coisas. Ambas as ideias causam muito sofrimento. Podemos racionalmente saber que há bilhões de seres no universo, mas nossa sensação é de que tudo gira em torno de nós. Pensamos que isso que chamamos de ‘nós mesmos’ também é permanente. Por vezes até falamos orgulhosamente: “Eu sou assim e não mudo!”, reforçando a noção de um eu rígido e monolítico. Não só isso, mas ainda acreditamos que criamos a nós próprios, que somos uma unidade sem relação com todo o resto. Comportamo-nos frequentemente como deuses que se criaram a si mesmos.

Pessoas que pensam assim sofrem muito na vida. As regras do mundo não são essas, e quando se tenta ser imutável num mundo mutável apenas se gera rigidez, petrificação, caduquice. A mudança é a única possibilidade da vida. O eu muda constantemente dependente de circunstâncias internas e externas, ambas alheias ao nosso controle. Quando tentamos controlá-las vamos contra o ritmo do mundo e invariavelmente teremos problemas. Ao nos pensarmos como unidades independentes, ao contrário de seres inter-relacionados com tudo o mais, criamos solidão, arrogância, ignorância.

Isso é particularmente importante de ser percebido na meditação: perceber a vontade, o desejo, a cobiça em segurar alguma coisa e querê-la imutável e ‘nossa’. Observar a tendência mental de segurar e parar as coisas, sentimentos, emoções, pensamentos. Em cada pessoa essa tendência será maior ou menor e dirigida a isso ou aquilo. Querer agarrar algo e ficar segurando é um dos hábitos mais arraigados da mente.

Há o tradicional modo de pegar macacos. Você encontra um jarro e põe alguma comida lá dentro. A boca do jarro deve ser tal que o macaco consiga colocar sua mão vazia, mas que não consiga retirar a mão se ela estiver segurando algo. O macaco se aproxima, põe a mão lá dentro e ao tentar retirar o alimento percebe que não consegue retirar. Ele não quer largar, o homem se aproxima, o macaco hesita entre o medo e o não querer largar o prêmio conquistado. E os momentos de hesitação e de luta interna são o tempo suficiente para ser preso para o resto de sua vida. Esse é um exemplo de como é possível arriscar sua própria vida para não ter que abrir a mão de algo.

As técnicas de meditação consistem em aprender a compreender a mente de maneira tão clara a ponto de ver o movimento mental de apreensão, cobiça, solidificação. Isso precisa de treinamento. Não é algo que pode ser percebido de imediato. Na realidade, esse movimento de aprender, segurar, querer parar, está como que embutido na maior parte dos processos mentais das pessoas. Elas já começam o dia nesse modo, o modo preso e enrijecido, contrário ao de uma mente liberta.

* Ricardo Sasaki é psicólogo clínico e um dos professores do NUMI.

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