Respiração vital

Uma das práticas formais nos programas de mindfulness é a meditação com base na respiração. Tal prática é muito antiga e a encontramos em diversas culturas ancestrais. Por meio da respiração, adquirimos foco e presença e, com o tempo, ela se torna uma grande amiga, capaz de nos levar diretamente para nosso centro.

Em 2006, quando o professor Santikaro esteve aqui no Brasil, ele falou um pouco sobre essa prática em seus contextos mais antigos:

“Ānāpānasati é uma palavra na língua pāli que significa a vigilância por meio da respiração. Ānā significa inspirar, pāna significa expirar; e sati significa a vigilância. No começo da bíblia cristã, existe uma passagem que fala sobre Deus colocando, através da respiração, o sopro da vida nas coisas. Ele sopra esse ar nas coisas inanimadas. A vida, então, que vem de Deus, vem na forma da respiração. Essa é a forma como Adão, ou os seres humanos, surgiram. Isso pelo menos é o que alguns dos hebreus achavam e passaram para os cristãos mais tarde. Eu não sou cristão, então eu não sigo todos os detalhes dessa história, mas o fato de a vida vir da respiração de Deus é algo que eu gostaria de chamar a atenção.

Em hebraico a palavra é ruah, e encontramos palavras com significados similares em outras línguas antigas. Em latim é spiritus. Em chinês é ch’i, e na Índia, em sânscrito, é prāna. Em tailandês é long, que significa vento e respiração também. Todas essas palavras têm vários significados e todas elas têm uma abrangência maior do que o nosso entendimento moderno da respiração. A cultura e a ciência modernas são bastante materialistas, e temos a tendência de entender a respiração basicamente enquanto agentes químicos e gases, associada a certos órgãos físicos, como os pulmões. Sendo assim, nos dias de hoje, temos um entendimento limitado do que significa a respiração e a vida. Talvez esse seja o motivo de tantas  pessoas terem problemas de respiração, porque a ciência moderna é bastante limitada, pelo menos neste sentido.

Em muitas culturas antigas, e não apenas na Índia, a respiração é central para a vida. E não há uma separação entre aquilo que chamamos de espírito, de vida ou de respiração vital. Se refletirmos sobre isso, não é uma surpresa ver o Buddha adotando a prática da respiração como a sua principal forma de meditação. Apesar de o Buddha ter mencionado outras formas de meditação, a prática que ele mais frequentemente realizava ele mesmo e que também ensinava, é essa prática da respiração.

Nos dias de hoje os buddhistas têm feito muitos tipos de meditações bem variadas. A maioria delas são de bastante ajuda, mas não deveríamos nos esquecer do ensinamento sobre a meditação original do Buddha. Se entendermos o relacionamento entre a respiração e a vida, nos vários aspectos – mental, físico e espiritual -, então compreenderemos como isso é importante para nossa vida.

Alguns podem já ter ouvido ou lido sobre formas de praticar a meditação da respiração, as quais, na verdade, são bastante limitadas. Nos dias atuais existem muitos mal-entendidos sobre essa prática. Por exemplo, alguns professores falam que ela é simplesmente uma prática de acalmar a respiração. Isso, porém, não é conforme o ensinamento original do Buddha. Nos ensinamentos antigos do buddhismo, ānāpānasati é uma forma completa de prática. Não é apenas uma parte do caminho. Quando ela é praticada completamente, ela se torna todo o caminho”.

Podemos usar nossa conexão com a respiração como um modo de fazer paradas regulares em nosso dia a dia por vezes caótico e ocupado. Será aquele momento de respirar e renovar a energia, ao invés de continuamente gastar e se estressar. Respirar é algo tremendamente satisfatório, podendo transformar nosso relacionamento diário com as atividades do cotidiano. O fim último da meditação é transformar a mente, e qualquer um que respire pode realizá-la.

* Ricardo Sasaki é psicólogo clínico e um dos professores do NUMI.

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