Uma flecha em suas escolhas

Temos visto até agora várias metáforas (escravidão, vício, enchente) para descrever a ação do desejo sedento – essa modalidade do desejo que consiste em ficar obcecado por algo – que serve de base para o apego e gera um dos tipos de sofrimento em nossas vidas. Outra metáfora frequente é a do desejo sedento enquanto flecha. A flecha, por vezes envenenada, lhe atinge de modo certeiro, e a imagem mostra a dor que está associada com o desejo. Uma flecha causa dor quando nos atinge, mas também causa dor quando, ao invés de retirarmos a flecha, queremos antes saber quem atirou, por qual razão, de onde, etc. A obsessão que acomete as pessoas também é assim. Há sofrimento ao desejar desesperadamente alguma coisa, há sofrimento em dar voltas e voltas no pensamento com esse desejo, há sofrimento depois de ter conseguido e não mais querer perder, há sofrimento na frustração em compreender que o objeto desejado não pode ser nosso. Quais são as coisas que doem? Como você mantém a flecha cravada em si, e mesmo a faz penetrar mais profundamente?

Veja que todos esses símbolos são úteis na meditação e na reflexão. Quais são as coisas que nos prendem? Quais são as coisas em que você se sente afogando? Ou sendo levado por uma correnteza forte? Quais são as coisas que fazem com que você sinta dor? Tudo isso está relacionado com o desejo sedento e indica áreas a serem trabalhadas. A técnica entra aqui no sentido de você tentar descobrir como o desejo surge em tal momento. Qual é o papel do desejo nesta prisão, neste vício, nesta correnteza, nesta dor que você sente agora? Qual é o tipo de desejo envolvido? Isso faz parte da reflexão. Isso é o que significa estudar o caminho, no sentido de você refletir e descobrir quais tipos estão atuando em cada momento e circunstância.

Em todos esses casos o desejo sedento está associado com o não controle da mente e dos sentidos. Daí uma das coisas principais que treinamos na meditação ser a atenção: Você saber perceber onde você está. E essa atenção é que traz o controle – o controle sábio da mente atenta que não deixa com que sentidos e estados mentais entrem nesse modo de arrecadação, de comer, de devorar. O desejo é insaciável. Tanto quanto você der alimento a ele, não há parada.

E daí outra imagem do desejo sedento associada à umidade que nutre as raízes. Significa que aqui há um crescimento subterrâneo. Quanto mais desejo, quanto mais estímulo ao desejo você coloca ou se cerca, mais carente você fica. Pensamos que se temos sede e saciamos a sede, então, o desejo estará saciado e cessará. Mas esse é um dos truques do desejo. A mensagem que ele nos oferece é de alívio da sede. O problema é que isso não ocorre. É uma mensagem enganosa, pois no caso do desejo sedento, que basicamente tem uma intenção por trás, quanto mais se incentiva o desejo, mais ele aumenta, o que faz com que nenhuma saciedade se efetue por muito tempo.

Meditar é percebermos os truques da mente. O que você quer? Continuar num caminho onde cada vez você tem mais sede, pontuado por uma série de mini prazeres de satisfação que logo se esvaem e alargam ainda mais a sede? Ou você quer reverter esse processo, quando a satisfação não vem de constantemente tentar matar a sede, quando você não precisa mais ter sede para estar satisfeito. É uma grande escolha. E é uma escolha difícil porque o mundo inteiro passa a mensagem que você deve sair à procura das coisas para ser feliz. Mas apesar de difícil, esta escolha provavelmente será uma das mais importantes que você poderá fazer em sua vida.

* Ricardo Sasaki é psicólogo clínico e um dos professores do NUMI.

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