Vigilância, Investigação, Sabedoria

Três coisas básicas são muito importantes na vida mais consciente. Três palavrinhas que vale a pena anotar e lembrar constantemente. A primeira delas é vigilância, que significa estar efetivamente presente no que ocorre, quando ocorre. Todos que já praticaram um pouco de meditação sabem o quanto é difícil permanecer em determinado objeto escolhido para ser o foco de atenção. Seja ele qual for, um mantra, alguma visualização, a chama da vela ou a atenção na respiração, é difícil manter a mente presente por uma quantidade de tempo mais longa. Muito da meditação é um treinamento neste observar de uma forma vigilante, atenta e presente. Não se trata simplesmente de ter uma plena atenção, de estar atento. Mas é um estar atento de uma maneira inteligente, o que é bem diferente! Significa que você quer olhar realmente o que está acontecendo.

Para que a vigilância seja empregada precisamos da segunda palavrinha que é a investigação. Investigação é um espírito de curiosidade. Para este tipo de meditação precisamos ser curiosos. Mas não curiosos a respeito de teorias, crenças ou doutrinas. Precisamos estar curiosos, a respeito de o que acontece em nós no momento em que as coisas acontecem conosco. Como andamos? O que acontece quando estamos sentados? O que é que faz com que certos pensamentos surjam? O que é sentir quando você sente algo? São perguntas que provavelmente muitos nunca se fizeram. Para responder essas perguntas temos que estar efetivamente presentes no que está acontecendo. Num curso de meditação temos exercícios especiais para fazer durante o dia.

Muitas pessoas pensam que meditação é uma técnica. Elas se preparam para aprender uma técnica. E o que é uma técnica? É uma certa lista numérica, que nos mostra que devemos fazer isto, isto, e depois aquilo. As pessoas pensam, então, que meditação é uma certa técnica que você aprende por livros ou por cursos. Elas pensam também que ela deve ser praticada num certo período de tempo; que tem um começo, um meio e um fim. Precisamos retirar tal ideia de nossa mente.

Se você pensar que a meditação é algo que você pratica num período que tem começo, meio e fim, você estará fadado a fracassar em sua meditação. Nesta abordagem de meditação que apresentamos, ela não é uma técnica. Ela é um modo de ver o mundo. Um jeito diferente de abordar as coisas do mundo. Para que você consiga descobrir e praticar isso, você a traz consigo o tempo todo. Não simplesmente uma hora por dia, por semana, ou de manhã e de noite. É isso que começamos a aprender aqui: outro modo de ver as coisas.

Quando se faz um retiro de meditação devemos praticar desde o momento em que se acorda até quando termina o dia. Mas não devemos pensar que a prática durante todo o dia só deve ser feita durante retiros. Na vida diária, o mais que pudermos, devemos cultivar a presença, devemos nos lembrar de praticar o olhar atento.

Quando vigilância e investigação passam a atuar juntas começa a surgir algo que é chamado de sabedoria. Sabedoria nesse sentido não é um vasto conhecimento sobre o eu profundo, a consciência cósmica ou o sentido último da vida. Sabedoria é simplesmente saber o que é apropriado e útil a cada momento. Isso é tudo o que precisamos saber. Em nossa vida não precisamos saber de todas as coisas. Você não precisa ler todos os jornais, todos os sites, todas as últimas notícias. Isso é o conhecimento quantitativo. Sim, você pode se tornar mais informado, mas sabedoria é saber o que é apropriado e útil a cada momento.

Desenvolver vigilância, investigação e sabedoria é o que esperamos desta prática de meditação. Uma frase-chave para esta meditação é: “O que é isto?”. A única coisa que você precisa se lembrar é de perguntar: “O que é isto?” diante de cada experiência. O que é estar sentado? O que é respirar? O que é sentir? Olhamos para o corpo mais intimamente, não com os olhos, nem com algum conhecimento teórico, mas a partir da pergunta: “O que é sentir o corpo?”, “O que é se mover?”, “O que é estar sentado?”, “O que é andar?”

* Ricardo Sasaki é psicólogo clínico e um dos professores do NUMI.

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