O medo da mudança

 

O medo da mudança tem a ver com as identificações que fazemos com isso e aquilo de maneira a formar uma auto-imagem. Acostumamos a nos definir e nos entender baseados naquilo com o que nos identificamos. À pergunta “Quem é você?”, respondemos: “Sou engenheiro, de tal empresa, casado com fulana, dono do carro x”, e assim vai. Daí ficarmos desesperados quando perdemos o emprego, separamos e temos o carro roubado. O sentimento vai muito além da coisa perdida, ele implica numa perda de parte da identidade formada. Tomemos os filhos, por exemplo. Temos plena consciência de que crescem, se transformam e eventualmente saem de casa. Filhos mudam. Para muitos pais e mães, no entanto, isso é um imenso sofrimento. O filho cresce, bem como a sensação de que ele está se tornando menos dependente dos pais. É como uma parte de si mesmo que está se afastando.

O medo surge quando ocorrem mudanças seja em você, seja nas circunstâncias. Esse medo apenas ocorre porque nossa visão de nós mesmos é tão pequena a ponto de não tolerar mudanças. Agarramo-nos ao que conhecemos de nós e nos recusamos a poder conhecer outras partes de nós. O mesmo pode ser dito de nosso medo das mudanças lá fora. Quando restrito é nosso mundo mais medo temos do estrangeiro, do mundo selvagem e desconhecido lá de fora.

Fazemos isso com nossas perspectivas, nossas ideias, até mesmo com nosso amor. A solidificação de nossa noção do que é o amor não permite ver as sutis mudanças de nossos sentimentos. Mas sentimento é algo dinâmico, é algo vivo. Sentimento muda. E a partir do momento em que dizemos: “Meu sentimento é o mesmo agora como era antes” ou “será sempre assim”, imediatamente temos um problema. Uma concepção estreita é mantida e precisa ser então defendida a todo custo.

A partir do momento em que você solidifica algo cuja natureza não é permanecer estável, você vai contra a natureza das coisas. Tomemos os traumas, por exemplo. Eles são paralisações emocionais numa certa época. O impacto da circunstância traumática é assimilado mais fácil ou duramente, dependendo tanto da intensidade do evento externo quanto da estabilidade interna do indivíduo. Eventos externos intensos são digeridos pelos sucos gástricos mentais, por assim dizer. Mas no trauma não há digestão. O evento ruim entra no estômago mental e este não é capaz de digeri-lo. E pode passar anos e mesmo décadas numa regurgitação do mesmo evento traumático. Esse é um exemplo extremo do que acontece com a mente quando ela se fecha ao redor de um evento e o segura fortemente.

Outro exemplo de uma paralisação em torno de uma emoção pode ser visto quando temos raiva e ira. O “te odiarei para o resto dos meus dias” exemplifica uma atitude que tenta segurar uma emoção no tempo. A mente se agarra no ódio e é capaz de mantê-lo com energia e determinação por décadas. Obviamente isso não é saudável. Isso equivale a uma tentativa de interromper o processo da vida, recusando que um sentimento passe a seu tempos .

Fazemos isso tanto com sentimentos negativos quanto com positivos também. Quanto tempo é gasto pensando sobre os bons momentos que tivemos com tal ou qual pessoa, a viagem inigualável a tantos anos atrás… e tudo isso vai sendo usado para comparar com a situação presente, deixando o indivíduo frustrado e deprimido. A fixação nos momentos bons quanto nos ruins, não deixando com que eles passem, é um tipo de doença da mente. Quem se prende às situações por meio da cobiça pelo permanente não consegue viver no presente, não consegue estar aberto completamente ao que o presente lhe traz. Ele está amarrado a algo do passado, bom ou ruim.

* Ricardo Sasaki é psicólogo clínico e um dos professores do NUMI.

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