O Tripé de Mindfulness

Mindfulness não é uma habilidade mental que surge do nada. Certamente ela é o carro-chefe, mas deve vir necessariamente acompanhada de algumas outras. Para mindfulness ser praticada de maneira integral ela deve ser parte de um tripé: ética, estabilização mental e sabedoria.

Se você decide estar aberto ao que ocorre na mente e ao que ocorre em seu ambiente, o que inclui as pessoas ao seu redor, isso implica em perceber o que você fala e o que você faz. Você não pode ignorar seu comportamento verbal e físico como áreas legítimas de plena atenção. Quando falamos não emitimos apenas um som. Ele vem carregado de significado, é dirigido a alguém, têm uma intenção e um objetivo. E fora as ações neutras cotidianas, o comportamento físico também é uma maneira de estabelecer relação com os outros seres. Ser verdadeiramente consciente é conhecer também nossas intenções. Esse é um nível mais profundo da prática de mindfulness. No início aprendemos a prestar atenção nas coisas, nossa relação com os objetos e nosso corpo (como ao andar, lavar louças, comer). Mas para além de tais coisas materiais há também um mundo de coisas mentais ocorrendo. O aprofundamento de mindfulness implica em também estar atento ao subtexto ocorrendo em nossas palavras e ações. Percebemo-nos não apenas falando, mas à intenção por trás das conversas. O objetivo é vencer, é enganar, é dissimular? Ou é harmonizar, estar aberto, colaborar? Esse cuidado do falar e agir é a dimensão ética de mindfulness. Ao ignorar essa dimensão, o movimento mindfulness se abre a críticas, e transforma-se num estar atento domesticado, a serviço de causas menos nobres que prover real consciência e promover uma transformação interior e exterior de seus praticantes.

Um exemplo comum do uso eticamente dúbio de mindfulness é sua utilização em empresas onde o objetivo é tornar os funcionários atentos, presentes, sem julgarem ou criticarem, tornando-os dóceis e servis para uma exploração de suas capacidades ou para fins pouco nobres em que a empresa esteja engajada. A criação de ovelhas que nunca questionam as ordens vindas de cima, contentes e sem espírito crítico algum, não é um uso ético de mindfulness. Quando falamos e agimos está havendo uma tentativa de compreensão aberta e amorosa do outro, com empatia? Ou queremos competir, distorcer, menosprezar?

Ao lado da dimensão ética, temos o engajamento no desenvolvimento das qualidades mentais. Isso é o que dá a energia e a nutrição para o estar plenamente consciente. As práticas formais de meditação se incluem aqui, fortalecendo e aprofundando a capacidade de manter a atenção de maneira estável e focada. Estabilização mental implica no treinamento metódico e preciso de habilidades como clareza sensorial, concentração, equanimidade, compaixão, tranquilidade, etc.

A terceira base do tripé é a aquisição de um tipo de sabedoria. Todo o trabalho de estar plenamente consciente, presente e aberto ao mundo não serve apenas para nos dar tranquilidade na vida e habilidade em lidar com emoções e conflitos na prática da meditação. Mindfulness deverá trazer aos poucos uma mudança de perspectiva da vida. De uma perspectiva limitada e superficial, nos interessaremos por olhar mais profunda e amplamente. Ao ver a vida de uma perspectiva mais ampla, estabeleceremos prioridades. Não há porque passar a maior parte de nosso tempo tratando de detalhes pouco significativos da vida, dedicando o bem mais precioso (o tempo) a saber o que pessoas que mal conhecemos estão divulgando em suas mídias sociais, ou o que os conglomerados de notícias escolhem para nos informar. Sabedoria tem a ver com valorizar o que deve ser valorizado, ao invés de considerar essencial aquilo que é desprovido de conteúdo significativo.

Ética, desenvolvimento mental interior e sabedoria, quando bem nutridos e atendidos, irão nutrir mindfulness ao nível que merece estar. E à medida que mindfulness vai crescendo ela vai iluminando igualmente essas três dimensões. Uma não atenção ao aspecto ético ou ao fato de que mindfulness não termina na criação de indivíduos atentos e tranquilos, pode acabar por corromper o movimento mindfulness no mundo.

 

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