Calçar sandálias: entre o cuidado de si e a transformação do mundo

Esse texto foi transcrito a partir do encontro online síncrono do “Meditando no Dia a Dia com o NUMI” ocorrido em 05/05/2026 e conduzido pelo Prof. Paulo Faleiro

Bom dia, todo mundo.

Oito horas em Brasília…

Vou começar contando uma história.

Era uma vez — há muito, muito, muito tempo — em um reino distante, uma rainha.
Uma rainha que ainda era criança.

E nesse reino, todas as pessoas andavam descalças.

Um dia, caminhando pelo reino, ela tropeçou em uma pedra… e machucou o dedão. Machucou de verdade. Arrancou a tampa do dedão.

Rapidamente, as pessoas ao redor cuidaram dela, fizeram curativo, acolheram. Mas doeu.

E, depois de um tempo refletindo, ela tomou uma decisão:

“Para que ninguém mais passe pelo que eu passei, eu ordeno que todo o reino seja coberto com couro.”

As conselheiras e conselheiros se reuniram. Ficaram perplexos.
Era uma tarefa impossível. Caríssima. Poderia levar o reino ao colapso.

Até que uma conselheira — chamada Sabedoria — se aproximou e disse:

“Majestade… e se, em vez de cobrir todo o reino, nós cobríssemos apenas os nossos pés?”

A rainha pensou… e disse:
“Boa ideia.”

E dizem que foi assim que nasceram as sandálias.


Essa é uma história antiga, que vem sendo transmitida de geração em geração. Ela aparece em diferentes versões na tradição buddhista e é frequentemente associada a uma formulação clássica de Shantideva, no texto The Way of the Bodhisattva (Bodhicaryāvatāra), onde se encontra a ideia de que, ao cobrir as solas dos pés com couro, é como se toda a terra estivesse coberta. Eu dei uma floreada, claro, pois quem conta um conto…

Essa historinha conversa muito com o que a gente busca fazer quando fala de práticas baseadas em mindfulness.
Esse “couro” que suaviza o contato com a realidade… a gente pode entender como uma metáfora da equanimidade.

Essa capacidade de estar diante da vida sem ser imediatamente puxado nem por uma euforia — diante do que é agradável — nem por uma aversão intensa — diante do que é desagradável.

Porque… “viver é perigoso”, como dizia João Guimarães Rosa.

A gente vai, em algum momento, tropeçar. Vai machucar o dedão.
Tem espinho, tem pedra, tem caco… ninguém passa ileso pela vida.

Então a pergunta é:
como a gente lida com isso?


Essa história aponta para um deslocamento importante.

Em vez de tentar controlar todas as variáveis externas — o que é impossível —, a gente volta a atenção para o modo como se relaciona com a realidade.

Como é que eu entro em contato com o que me acontece?

Mas isso… também é perigoso.

Porque, numa leitura superficial, pode virar uma espécie de psicologização da vida.
Como se tudo dependesse apenas de como eu lido internamente com a experiência.

E aí a gente corre um risco sério.

Por exemplo:
dizer que, para enfrentar o racismo, basta que a pessoa “trabalhe isso dentro de si”…

Não.
O racismo é uma violência estrutural.
Exige políticas públicas, mudanças institucionais, legislação restritiva, ação coletiva.

Então não dá pra cair nesse extremo.

Mas também não dá pra cair no outro.


Porque, ao mesmo tempo, se a gente entende que tudo se resolve apenas no plano externo… a gente deixa o sujeito sem ferramentas para lidar com aquilo que já está acontecendo agora.

Mesmo sendo injusto.
Mesmo precisando ser transformado.
Está acontecendo e é preciso lidar com o que se apresenta aqui e agora.

Então talvez o caminho não seja nem um extremo, nem o outro.


E é aí que mindfulness pode contribuir.

A gente pode pensar essa contribuição em três movimentos.

Primeiro movimento: identificar

Ter clareza.

Perceber: isso aqui é um espinho?
É uma pedra?
É algo muito sedutor, que pode gerar apego?

Isso exige estabilização da mente.
Suspender um pouco os julgamentos automáticos. As opiniões. As crenças.
Olhar com curiosidade. Com abertura.


Segundo movimento: resistir

A partir dessa clareza, perceber as tendências:
agarrar, rejeitar, reagir no automático.

E criar um pequeno espaço.

Nesse espaço, aparece uma possibilidade de liberdade.
De agir — e não apenas reagir.


Terceiro movimento: transformar

Se eu vejo um galho com espinhos no caminho, posso não pisar.

Mas talvez eu possa ir além.
Posso tirar o galho espinhoso dali… para que outras pessoas também não se machuquem.

Então não é só me proteger.
É agir na realidade.


E aqui a gente volta para a história.

Calçar sandálias não é virar as costas para um mundo cheio de espinhos.

É caminhar de um jeito menos exposto…
e, ao mesmo tempo, poder agir sobre esse mundo.

Talvez a gente possa ampliar a imagem:
não só sandálias, mas também luvas de couro.


Uma pessoa muito querida me contou recentemente que voltou do Japão impressionada com uma coisa simples: não tem lixo na rua.

Isso não é só individual.
É um cuidado coletivo.

E isso nos ajuda a sair de uma dicotomia.

Não é só interno.
Não é só externo.

É uma relação entre os dois.


E aqui tem um ponto importante.

Quando a gente fala disso, às vezes aparece uma indignação — e com razão.

“Por que eu é que tenho que atuar para transformar coisas que são injustas, estruturais, muito maiores do que eu e não quem as reproduz?”

Essa é uma questão legítima.

Mas talvez ajude lembrar que os processos coletivos também passam por indivíduos.

E que cultivar clareza pode ser justamente o que sustenta formas mais consistentes de resistência e transformação coletiva.


Uma coisa que me ajuda, particularmente, é perceber que muito do que causa sofrimento no mundo nasce de processos de ignorância — no sentido de não perceber a interdependência e as consequências das próprias ações. E ignorância também é uma manifestação de sofrimento.

E isso não está só “lá fora”.
Também me atravessa. Não sou imune à ignorância, nem um dia sequer.

Quando eu vejo isso, a minha reação muda um pouco. Surge compaixão.
Não some a indignação — mas ela pode se tornar mais lúcida, menos reativa.


Então, talvez o convite seja esse:

calçar sandálias… e também usar as mãos.

Cuidar do modo como a gente pisa no mundo…
e, ao mesmo tempo, participar da construção de caminhos menos danosos, mais compassivos e amorosos.


Mas, fica a pergunta:

faz sentido, para você, caminhar assim?

Com mais atenção, mais equilíbrio…
e com um compromisso — na medida do possível — de reduzir sofrimento e favorecer o florescimento da vida?


Se fizer, então talvez a gente possa seguir por aí.

Mãos à obra!

.: Paulo Faleiro é psicólogo clínico especialista na abordagem sistêmica, mestre e doutorando em psicologia social pela UFMG, professor da Faculdade de Ciências Médicas/MG, fundador e um dos professores do NUMI – Núcleo de Mindfulness.

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