Ruminando a raiva

Em “O medo da mudança” vimos como nos prendemos ao passado, não deixando que ele passe. A raiva revela um típico processo de segurar, se apegar, ruminar algo que aconteceu. Por meio da repetição do pensamento trazemos imagens e palavras relacionadas ao evento que motivou a raiva fazendo com que ela se torne ainda maior. Repetir para não esquecer. Repetir para aumentar e nunca deixá-la partir. Tudo começa com sensações desagradáveis, passando pela irritação, pensamento repetido, reações às imagens e palavras, tudo isso aumentando a permanência da raiva. Muita energia gasta em todo o processo.

Mindfulness pode entrar em cada momento do processo. Na percepção clara das sensações desagradáveis surgindo no corpo e na mente. Na rapidez em perceber as irritações. No se tornar consciente dos pensamentos e de seus padrões. Na criação de espaços de silêncio entre o estímulo e a reação. Na atividade recuperadora quando se percebe a mente envolvida em um processo destrutivo. Em cada um desses momentos mindfulness pode e deve atuar de uma determinada maneira, trazendo luz ao processo total.

Mindfulness é clareza desapegada. Em alguns momentos é necessário clareza sobre o que está ocorrendo. Em outros momentos o desapego é exercido pelo hábito cultivado de soltar. Um dos grandes mestres de mindfulness, o Buddha, falava o seguinte sobre o lidar com os pensamentos: “Há dois tipos de pensamento: os que devem ser incentivados e os que não devem ser incentivados. Qual é o tipo que não deve ser incentivado? É aquele que, quando incentivado, faz as qualidades mentais prejudiciais aumentarem, e as qualidades mentais benéficas declinarem”. ~ Sakka-pañhā Sutta

Quando pessoas fazem retiros longos de meditação elas percebem que podem ficar dias e dias pensando os mesmos pensamentos. Pode ser sobre os bons momentos vividos, ou sobre quando alguém falou algo desagradável sobre você. Tais pensamentos podem durar indefinidamente, são repetidos de várias maneiras e em versões alternativas. É aí que elas veem o quanto podem ser obsessivas.

É neste momento que entra a discriminação apontada acima em relação aos pensamentos. Quando a família da raiva é notada – família constituída de irritação, inveja, egoísmo, violência, falta de piedade, soberba, hipocrisia, etc – mindfulness atua em duas etapas: primeiramente no reconhecer a presença de algum desses pensamentos, e em seguida reconhecer que se trata de um desses pensamentos que não devem ser incentivados.

* Ricardo Sasaki é psicólogo clínico e um dos professores do NUMI.

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